segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

O que Calvino disse e deixou de dizer sobre Judas? / What Calvin said and did not say about Judas?

Baseados nos pensamentos de João Calvino, os chamados “calvinistas” entendem que Deus escolheu uns para a salvação, e uns para a condenação, simplesmente porque assim desejou. Certos que João Calvino acertou quando deu sua opinião sobre a vida de Judas Iscariotes nas famosas Institutas, os calvinistas usam do mesmo argumento para darem continuidade ao pensamento do seu teólogo. 


Vejamos o que Calvino disse a respeito de Judas:


Institutas III Cap. XXII, 7
Entretanto, o fato de Cristo, em outro lugar, incluir Judas entre os eleitos, quando era um diabo [Jo 6.70], isto se refere apenas ao ofício apostólico, o qual, ainda que seja um nítido espelho do favor de Deus, como em sua pessoa tantas vezes Paulo reconhece, contudo não contém em si a esperança da salvação eterna. Portanto, como exercesse ele perfidamente o apostolado, Judas veio a ser pior que um diabo; aqueles, contudo, a quem Cristo uma vez enxertou em seu corpo, não deixará perecer a nenhum deles [Jo 10.28], porque, ao preservar-lhes a salvação, cumprirá o que foi prometido, isto é, manifestará o poder de Deus que “é maior do que tudo [Jo 10.29]. Ora, o que diz em outro lugar: “Pai, nenhum dos que me deste pereceu, exceto o filho da perdição” [Jo 17.12], ainda que seja uma maneira difícil de falar, contudo não contém nenhuma ambiguidade.

A síntese é: Deus, por uma adoção graciosa, cria aqueles a quem quer ter por filhos. A causa intrínseca disto, porém, está nele próprio, porque não leva em conta nada mais além de seu secreto e singular beneplácito.

Institutas III Cap. XXIV, 7
Mas, acontece diariamente que aqueles que pareciam ser de Cristo, de novo dele decaiam e se arrojem à perdição. Com efeito, nessa mesma passagem onde afirma que ninguém pereceu dentre aqueles que lhe foram dados pelo Pai, contudo, excetua o filho da perdição [Jo 17.12]. Certamente que isto é verdadeiro, mas igualmente verdadeiro é também que os tais nunca foram unidos a Cristo com aquela confiança de coração mercê da qual afirmo que a certeza da eleição se nos faz firme. “Saíram de nós”, diz João, “mas não eram de nós, pois se fossem de nós, ficariam conosco” [1Jo 2.19]. Tampouco nego que tenham com os eleitos sinais afins de vocação, mas de modo algum lhes concedo que tenham esse arrimo infalível da eleição o qual prescrevo que os fiéis busquem na palavra do evangelho. Portanto, que semelhantes exemplos não nos alterem nem nos impeçam de descansar confiados na promessa do Senhor, quando diz que o Pai lhe deu a todos aqueles que com verdadeira fé o recebem, dos quais nem um sequer perecerá por ser ele seu guardião e pastor [Jo 3.16; 6.39].

Institutas III, Cap. XXIV, 9
Esta é a mesma causa de que Cristo faz a exceção há pouco referida, onde diz que “ninguém pereceu, exceto o filho da perdição” [Jo 17.12]. E de fato é uma expressão imprópria, todavia, muito longe de obscura, pois ele não era contado entre as ovelhas de Cristo porque o era realmente, mas porque ocupava seu lugar. Que de fato o Senhor declara em outro lugar que ele foi escolhido para si, com os apóstolos, isto se refere somente ao ministério. “Não vos escolhi”, diz ele, “em número de doze? Contudo, um dentre vós é um diabo” [Jo 6.70]. Isto é, o havia escolhido para o cargo de Apóstolo. Quando, porém, fala da eleição para a salvação, o mantém longe do número dos eleitos: “Não falo a respeito de todos; eu sei a quem escolhi” [Jo 13.18]. Se alguém confunde o termo eleição em ambas essas modalidades de passagens, se enleará miseravelmente; se as distingue, nada é mais livre de embaraço.

Por isso, Gregório se expressa péssima e perniciosamente, quando ensina que temos consciência apenas de nossa vocação, mas que somos incertos de nossa eleição, donde a todos exorta ao temor e tremor, usando ainda deste argumento porque, ainda que saibamos o que somos hoje, entretanto, o que haveremos de ser, nos é desconhecido. Mas com sua maneira de proceder dá a entender bem claramente quanto se enganou nesta matéria. Porque fazia a eleição depender dos méritos das obras, tinha motivo mais que suficiente para abater os ânimos; firmá-los não podia, porque não os transferia de si próprio para a confiança da bondade divina. Daqui os fiéis podem ter algum sabor daquilo que já discutimos no início: a predestinação, se for entendida corretamente, não produz a convulsão da fé, mas, antes, sua melhor confirmação. Entretanto, tampouco nego que às vezes o Espírito acomoda a linguagem à medida de nosso senso, como quando diz: “No conselho secreto de meu povo não estarão e na lista de meus servos não serão escritos” [Ez 13.9]. Como se Deus começasse a inscrever no livro da vida aqueles a quem conta no número dos seus, quando, no entanto, sabemos que o próprio Cristo o atesta [Lc 10.20], dizendo que os nomes dos filhos de Deus foram escritos no livro da vida desde o início [Fp 4.3]. Com estas palavras, porém, simplesmente se assinala a exclusão daqueles que pareceram principais entre os eleitos, como lemos no Salmo: “Sejam apagados do livro da vida e com os justos não sejam inscritos” [Sl 69.28].
Institutas III, Cap. XXV, 6
Enquanto isso, uma vez que a Escritura por toda parte nos ordena que dependamos da expectativa da vinda de Cristo e que prorroga a coroa de glória até esse momento, estejamos contentes com estes limites divinamente prescritos: uma vez desincumbidas de sua militância, as almas dos piedosos passa para o bem-aventurado descanso, onde, com feliz alegria, aguardam desfrutar da glória prometida, e assim todas as coisas sejam tidas em suspenso todas até que Cristo apareça como Redentor. Os réprobos, porém, não há dúvida de que têm a mesma sorte que é prescrita a Judas e aos diabos, a saber, são mantidos atados por cadeias, até que sejam arrastados ao suplício a que foram destinados [Jd 6].

Institutas IV, Cap. XIV, 15
A isto se refere também aquela distinção entre o sacramento e a realidade do sacramento, a qual Agostinho também estabelece. Porque não significa apenas que aí se contêm a figura e a realidade, mas que de tal maneira estão unidas, que não podem separar-se, e também que na própria união convém distinguir-se sempre a realidade do sinal, para que não transfiramos a um o que é do outro. Agostinho fala da separação quando escreve que somente nos eleitos os sacramentos efetuam o que figuram. De igual modo, quando escreve a respeito dos judeus: “Embora os sacramentos fossem comuns a todos, a graça não era comum, a qual é o poder dos sacramentos. Assim também a lavagem da regeneração [Tt 3.5] é agora comum a todos, mas a própria graça, pela qual os membros de Cristo são regenerados juntamente com seu Cabeça, não é comum a todos.” De novo, em outro lugar, a respeito da Ceia do Senhor: “Nós também recebemos hoje o alimento visível; mas uma coisa é o sacramento, outra o poder do sacramento. Por que é que muitos se aproximam do altar, e lhes serve de condenação o que ali recebem? Ora, inclusive o bocado do Senhor foi veneno para Judas, não porque recebeu o mal, mas porque, sendo mau, recebeu mal o bem.” Pouco depois: “O sacramento desta matéria, isto é, da unidade da corpo e do sangue de Cristo, é preparado na mesa do Senhor em alguma parte, diariamente; em outra parte, em intervalos, em certos dias; e alguns tomam dela para vida, e outros, para perdição.

Institutas VI, Cap. XVII, 34
E para que melhor se remova a dúvida, depois de haver dito que este pão requer a fome do homem interior, Agostinho acrescenta: “Moisés, Arão, Finéas e muitos outros que comeram o maná agradaram a Deus. Por quê? Porque entendiam o alimento visível espiritualmente, apeteciam espiritualmente, degustavam espiritualmente, de sorte que fossem saciados espiritualmente. Ora, também nós hoje temos recebido o alimento visível, mas uma coisa é o sacramento; outra, a virtude do sacramento.” Pouco depois: “E mediante isto, aquele que não permanece em Cristo, e em quem Cristo não permanece, indubitavelmente nem ingere espiritualmente sua carne, nem espiritualmente bebe seu sangue, ainda que triture carnal e visivelmente com os dentes o sinal do corpo e do sangue.” Ouvimos de novo que o sinal visível se contrapõe à ingestão espiritual, com que se refuta este erro: que o corpo invisível de Cristo seja deveras comido sacramentalmente, se bem que não espiritualmente. Ouvimos também que nada se concede dele aos profanos e impuros, senão o recebimento visível do sinal. Daqui seu célebre dito de que os demais discípulos ingeriram o Pão Senhor; Judas, porém, o Pão do Senhor, com que claramente exclui aos incrédulos da participação de seu corpo e sangue. Tampouco a outro propósito visa ao que diz em outra parte: “Por que te maravilhas se a Judas foi dado o pão de Cristo, mediante o qual se fizesse servo do Diabo, quando vês, em contrário, que a Paulo foi dado um mensageiro do Diabo, através do qual fosse aperfeiçoado em Cristo” [2Co 12.7]?1


Estaria Calvino certo? Calvino fez uma exegese bíblica quando disse que Judas estava entre os eleitos, mas não era um eleito?  Jesus, que é Deus, verdadeiramente predestinou o seu apóstolo ao Lago de Fogo? Vale a pena ter Calvino como referencial exegético?


Vejamos agora o que Calvino NÃO disse sobre a carreira apostólica de Judas.


Calvino NÃO disse que Judas recebeu a promessa para ser um dos doze juízes que julgaria as doze tribos de Israel:

Então, lhe falou Pedro: Eis que nós tudo deixamos e te seguimos; que será, pois, de nós? Jesus lhes respondeu: Em verdade vos digo que vós, os que me seguistes, quando, na regeneração, o Filho do Homem se assentar no trono da sua glória, também vos assentareis em doze tronos para julgar as doze tribos de Israel (Mt 19:27-28)


Calvino NÃO disse que Judas recebeu dádivas que somente um salvo pode receber:

Tendo chamado os seus doze discípulos, deu-lhes Jesus autoridade sobre espíritos imundos para os expelir e para curartoda sorte de doenças e enfermidades. A estes doze enviou Jesus, dando-lhes as seguintes instruções: Não tomeis rumo aos gentios, nem entreis em cidade de samaritanos; Curai enfermos, ressuscitai mortos, purificai leprosos, expeli demônios; de graça recebestes, de graça dai.” (Mt 10:1-8)

Nos versículos 19 e 20 do mesmo capítulo, Jesus prometeu que quando os doze fossem estregues as autoridades por estarem pregando as Boas Novas, quem falaria neles ou por eles, incluindo Judas, obviamente, seria o Espírito Santo:

por minha causa sereis levados à presença de governadores e de reis, para lhes servir de testemunho, a eles e aos gentios. E, quando vos entregarem, não cuideis em como ou o que haveis de falar, porque, naquela hora, vos será concedido o que haveis de dizer, visto que não sois vós os que falais, mas o Espírito de vosso Pai é quem fala em vós. (Mt 10:18-20)

Como vimos, Judas recebeu promessas e dádivas espirituais na mesma proporção dos demais apóstolos.


Calvino NÃO disse que Jesus considerava Judas seu amigo, companheiro e etc...

Jesus, porém, lhe disse: Amigo, para que vieste? Nisto, aproximando-se eles, deitaram as mãos em Jesus e o prenderam. (Mt 26:50)

O vocábulo traduzido por “Amigo” é o substantivo ἑταῖρε Segundo o TDNT esse vocábulo tem os seguintes sentidos:
Este termo é usado para um. "Companheiro", b. "Companheiro de lutas", c. "Membro do mesmo partido," d. "Sociedade religiosa", e. "Aluno", f, "amigo", e g. "Colega." Não é comum na LXX, mas é usado mais tarde no judaísmo para um membro qualificado, mas ainda não ordenado do corpo de escriba, e mais amplamente para quem procura viver rigorosamente a lei, especialmente as suas exigências rituais.2

O BDAG diz:
...camarada, companheiro, de um membro de um grupo de colegas membros D 14: 2. De playmates Mt 11:16 V.L. Dos discípulos de Jesus (X., Mem. 2, 8, 1 al. Sócrates refere-se a seus alunos como e` .; Ael. Aristid. 47 p. 421 D. oi` Pla, twnoj e` .; Porphyr., Vi .. Pythag 55 de Pythag.-Philo, Vi Cont 40 de companheiros de Odisseu) Mt 26:50 (e`tai / re;.... cp Jos, 12 Ant, 302 w = e`tai / roi.); GPT 07:26. Papi, aj ...2

O UBS diz:
 ἑταῖρε você meu amigo, companheiro.2

Strong diz:
2083 Significado: 1) um camarada, companheiro, parceiro 2) na gentilmente endereço 2a) amigo (meu bom amigo)2

Além desses ainda temos o EDNT; FRIBERG; LS; LEH;UBS; THAYER; GNT; LIDDELL-SCOTT, trazendo o mesmo sentido de amizade. 

Ou seja, entre Cristo e Judas sempre houve um sentimento de companheirismo. Jesus não poderia ter predestinado seu Amigo ao inferno, aliás, Cristo não predestinou ninguém, e isso é percebido também quando vemos Ele pedindo a Deus que perdoe os que participaram da sua morte, justamente porque eles não sabiam o que estavam fazendo.

Contudo, Jesus dizia: Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem. Então, repartindo as vestes dele, lançaram sortes. (Lc 23:34)

Assim, entendemos que Calvino passou “desapercebido” por esses textos uma vez que com clareza é mostrado que Judas além de ter sido escolhido como apóstolo, recebeu promessas e poderes que somente um ELEITO pode possuir. Logo, se tais promessas não se cumpriram na vida desse apóstolo é porque ele escolheu seguir o caminho do mal, pois o traidor poderia ser qualquer um haja vista que a profecia dizia que um amigo íntimo seria o traidor e não especificamente Judas, embora ele tenha deixado o diabo por esse sentimento perverso em seu coração (Jo 13:2) .

Notas:
http://ospuritanos.blogspot.com.br/2011/04/as-institutas-da-religiao-crista-e.html
2  Biblieworks9

Itard Víctor Camboim De Lima. 26/01/2015. 

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